Pregando as Cartas

Ephesians textbook

A pregação da Bíblia é o meio soberanamente ordenado de Deus para despertar almas mortas para a vida e trazer ordem à vida e adoração da igreja local (Tito 1-2). Não há outro substituto. A igreja local nunca descobrirá um meio melhor de crescimento que vá além da pregação da Sagrada Escritura. Nenhum esquema pode criar vida ou profundidade espiritual nos corações do povo de Deus. Ele não planejou que Sua Igreja fose edificada sobre métodos pragmáticos ou truques religiosos vazios. Portanto, Deus quer que a sua Palavra seja central entre o seu povo na pregação dominical e ensino da Bíblia, o povo de Deus será moldado, confrontado, reprovado, repreendido e exortado. Isso resultará em uma igreja mais santa e separada.

Deus quer que a sua Palavra seja central entre o seu povo na pregação dominical e ensino da Bíblia, o povo de Deus será moldado, confrontado, reprovado, repreendido e exortado. Isso resultará em uma igreja mais santa e separada.

A Bíblia contém uma variedade de gêneros: narrativo, poético, provérbial, profético, bioráfico, parábolico, apocalíptico e histórico, além disso, uma das maiores seções da Bíblia é encontrada no Novo Testamento as cartas. Deus ordenou que essas cartas fossem usadas no começo da formação e santificação de sua Igreja.

A Proeminência das Cartas

Escrever cartas era um meio comum de comunicação entre as comunidades Cristãs primitivas. Esta era uma prática comum no mundo Greco-Romano durante o tempo em que o Novo Testamento foi escrito. Cartas importantes servem como um canal de comunicação para entregar doutrinas vitais e mensagens corretivas às igrejas locais pelas mãos dos apóstolos. A cartas que temos no Novo Testamento são frequentemente referenciadas como as epístolas.

Algun têm tentado fazer uma distinção entre as cartas primitivas e as epístolas, mas é tolice forçar esse ponto. Dwight M. Pratt observa:

As epístolas do Novo Testamento são elevadas a uma categoria distinta pelo seu poder e eminência espiritual e deram à palavra ”epístola”, um significado e uma qualidade que irá para sempre distingui-lá de uma carta.1

O ponto que deve ser reforçado é que há pouca diferença no estilo, vocabulário e papiro entre a comunicação escrita dentro e fora da comunidade Cristã durante o período do Novo Testamento, mas a distinção essencial é operada pelo Espírito de Deus que se move sobre vasos escolhidos para produzir as cartas do Novo Testamento (2 Tim 3:16; 1 Pe 1:21). Devemos ser livres para usar carta e epístola de forma intercambiável, desde que deixemos claro quando nos referimos a uma obra divinamente inspirada do nosso cânon neo-testamentário.

O Espírito de Deus colocou as cartas do cânon bíblico em uma posição proeminente. De 27 livros do Novo Testamento, 21 dos livros são cartas. Em relação a sua localização no Novo Testamento, D. Edmond Hiebert observa:

A erudição moderna não está de acordo sobre a questão do lugar adequado para essas epístolas no cânon. Influenciados pela ordem geralmente encontrada em manuscritos antigos, elas foram colocadas antes das epístolas Paulinas por Tischendorf, Tregelles, Westcott e Hort em suas edições do texto Grego. Mas o texto Grego popular do Nestle segue a ordem encontrada no nosso cânon em português que adota a ordem de Jerônimo na Vulgata. 2

Em contraste com outras literaturas encontradas na Bíblia, o estilo didático das cartas muitas vezes revela a estrutura e o tema com mais clareza enquanto outros tipos literários escondem. Enquanto essas cartas podem parecer mais fáceis de se interpretar do que outros gêneros tais como provérbial, profetico ou literatura apocalíptica – não devemos subestimar as cartas e nem rebaixá-las a uma posição inferior dentro do cânon bíblico. Compreender a estrutura e interpretar as cartas é essencial para a pregação do Novo Testamento.

O Apóstolo Paulo alude a outras cartas extra-bíblicas que ele escreveu a várias igrejas que são obviamente excluídas do nosso Novo Testamento (1 Cor 5:9; 2 Cor 2:3-4; Col 4:16). Em 2 Tessalonicenses 2:2, encontramos uma referência a uma carta da mão de Paulo concernente à antecipada segunda vinda de Cristo. Na sua primeira carta à igreja em Corinto, Paulo reconhece uma carta da igreja de Corinto, buscando esclarecimentos em certos assuntos (1 Cor 7:1). Além disso, Paulo revela planos para se corresponder com os Corintíos, a quem seria confiado um presente financeiro das igrejas Gentias destinadas a Jerusalém (1 Coríntios 16:3).

Os líderes da igreja primitiva em Jerusálem enviaram uma carta dirigida aos crentes Gentios em Antioquia, Síria e Cilícia como citado em Atos 15:23. Da mesma forma, os crentes em Éfeso redigiram uma carta em nome de Apolo para os irmãos em Acaia (Atos 18:27). Esses casos ressaltam as ricas trocas de cartas e práticas de comunicação dentro das primeiras comunidades Cristãs, fornecendo informações valiosas sobre as convicções doutrinárias e a dinâmica organizacional dessas igrejas locais.

As cartas do cânon do nosso Novo Testamento podem ser organizadas em dois grupos principais: Cartas Gerais e Cartas Paulinas. Dentro desses dois grupos, há uma sobreposição de estrutura e características básicas, mas há também alguns aspectos únicos destes dois grupos que merecem a nossa atenção.

Cartas Gerais

As epístolas gerais ou epístolas católicas(universal) como foram referenciadas em estudos anteriores, referem-se às cartas no Novo Testamento as quais não são atribuídas ao Apóstolo Paulo e que não são especificamente endereçadas a indivíduos ou igrejas locais. João Calvino escreve:

A palavra ”Católico” ou Geral, aplicada às Epístolas aqui explicadas tem sido compreendida de forma diferente. Alguns pensaram que foram assim chamados, porque contém verdades católicas; mas outras Epístolas podem, por esta razão, serem também chamadas de Católicas. Outros supuseram que católico é sinônimo de canônico; mas neste caso também não há mais razão para aplicar a palavra a essas Epístolas do que a quaisquer outras Epístolas. Mas a opinião mais provável é que foram chamadas Católicas ou Gerais, porque não foram escritas para nenhuma igreja em particular, mas para Judeus ou Cristãos Gentios em geral. 3

Com o tempo, o termo ”Epístola Geral” ou ”Carta Geral” tornou-se mais padrão. D. Edmond Hiebert escreve: ”O termo ‘Epístola Geral’ é um rótulo convincente para estas sete epístolas como um grupo, embora o termo não é estritamente preciso”. 4 Esta categoria inclui escritos como Tiago, 1 Pedro, 2 Pedro, 1 João, 2 João, 3 João e Judas.

As contribuições de figuras como Tiago, o irmão de nosso Senhor, bem como de Pedro que serviu como o líder do círculo íntimo dos apóstolos não devem ser minimizadas. Dentro da carta de Tiago, ele inclui uma importante seção sobre o relacionamento entre a fé e as obras (Tiago 2) e nas mãos de Pedro, temos uma das mais importantes afirmações doutrinárias sobre a fonte das Escrituras (2 Pe 1:16-21). Ademais, as cartas de João reforçam a segurança e confirmação da salvação (1 João 5:13) na vida do crente enquanto Judas enfatiza a necessidade de lutar pela fé (Judas 3). Todas essas cartas servem como obras formativas e organizacionais usadas pelo Senhor na vida da igreja primitiva que continuarão até Cristo retornar.

Cartas Paulinas

O ministério do apóstolo Paulo é sem dúvida uma das maiores partes do plano redentor de Deus para salvar seu povo e essencial para a conclusão do cânon do Novo Testamento. As cartas escritas por Paulo incluem Romanos, 1 Coríntios, 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 Tessalonicenses, 2 Tessalonicenses, 1 Timóteo, 2 Timóteo, Tito e Filemom. Não só estas 13 cartas demonstram a importância do ministério de Paulo. Romanos é indiscutivelmente um dos livros mais importantes em todo o cânon bíblico. D. Edmond Hiebert explica:

O Novo Testamento é impressionante, porque praticamente um terço do seu conteúdo são cartas. 21 dos 27 livros são epístolas. * Destes 21, 13 carregam o nome do apóstolo Paulo. Elas formam a maior parte da seção epistolar do Novo Testamento. 5

Dentro das cartas de Paulo, encontramos muitas partes móveis que incluem saudações pessoais, planos de viagem, correção dura e às vezes, palavras de elogio. As cartas de Paulo contém precisão doutrinária e exortação prática. Tom Schreiner escreve:

Vários exemplos revelam a natureza circunstancial das cartas. Claramente Paulo escreveu aos Gálatas, porque as igrejas da Galácia estavam abandonando o evangelho Paulino (Gl 1:6-9; 5:2-6). Ele escreveu aos Colossenses para evitar uma nova heresia que tinha potencial de influenciar a igreja (Col 2:4-23). Diversos problemas atormentaram a igreja de Corinto e assim, Paulo escreve 2 cartas canônicas para eles. Filipenses parece ter sido escrito por várias razões. A igreja enviou um presente a Paulo e ele queria expressar sua gratidão (Fp 1:3-8; 4:10-14). Além disso, a desunião provavelmente estava surgindo na igreja (Fp 1:27-2:11; 4:2-3), e Paulo queria alertar a igreja sobre o perigo dos falsos mestres (Fp 3:2-4:1). Todas as Cartas Pastorais (1-2 Timóteo e Tito) foram escritas para fortalecer as igrejas no ensino saudável, porque o falso ensino estava ameaçando as igrejas. 6

As cartas de Paulo podem ser organizadas em 3 subcategorias baseadas em seu foco. Essas categorias incluem as cartas teológicas (Romanos, 1-2 Coríntios, Gálatas e 1-2 Tessalonicenses), cartas da prisão (Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom) e cartas pastorais (1-2 Timóteo e Tito). Estes grupos são estabelecidos de acordo com o seu contexto histórico e outros contextos, juntamente com o tema principal e o seu objetivo. As cartas da prisão têm um aroma de sofrimento e perseverança na fé enquanto as cartas teológicas entregam verdades importantes como a justificação pela fé e escatologia.

As cartas da prisão têm um aroma de sofrimento e perseverança na fé enquanto as cartas teológicas entregam verdades importantes como a justificação pela fé e escatologia.

As cartas Paulinas são, sem dúvida, vitais para a vida Cristã e para a Igreja de Cristo. A seguinte descrição por Philip Schaff é uma descrição adequada e elogio do ministério de Paulo dentro do cânon do Novo Testamento:

Tratados para os tempos, são tratados para todos os tempos. Filhos do momento fugaz, contêm verdades de momento infinito. Eles comprimem mais ideias em poucas palavras do que em quaisquer outros escritos, humanos ou divinos, exceto os Evangelhos. Eles discutem os temas mais elevados que podem desafiar uma mente imortal e tudo isso diante de pequenas sociedades humildes, artesãos incultos, libertos e escravos! E ainda assim, eles têm mais valor real e geral para a igreja do que todos os sistemas de teologia de Orígenes a Schleiermacher.7

Pregando o Ponto da Carta – Não a Ocasião

O objetivo da pregação expositiva, ou uma pregação bíblica, é esforçar-se para fazer do ponto principal da passagem, o principal ponto do sermão. Uma tentação comum aos pregadores é focar em uma casca específica de uma árvore sem uma visão adequada da floresta como um todo. Outra tentação comum aos pregadores é pregar com uma visão da floresta sem dar atenção aos detalhes da casca sobre as árvores individuais. A tarefa na pregação expositiva é pregar o ponto principal de cada parágrafo, mantendo-se consistentemente ligado ao ponto principal de toda a carta.

As cartas dentro do Novo Testamento são similares em gênero e variam em suas características. A carta mais longa é Romanos (7111 palavras) e mais curta é 2 João (219 palavras). Embora alguma vozes como Adolf Deissmann tenham trabalhado para designar os escritos de Paulo como cartas distintas de outras do Novo Testamento como epístolas gerais, devemos notar que todas as cartas no Novo Testamento são epístolas e consideradas ocasionais em algum nível.8 As cartas do Novo Testamento são ocasionais, o que significa que elas foram escritas de forma a lidar com circunstâncias específicas, problemas ou situações únicas de pessoas em uma determinada localização dentro de um contexto histórico.

Devemos abordar as cartas do Novo Testamento lembrando que essas cartas não foram escritas diretamente para nós, mas escritas indiretamente para nós. Deus usou homens específicos para escrever essas cartas aos seus destinatários e preservou-as no cânon do Novo Testamento para a igreja de Deus ao longo dos tempos.

Vivemos a vida em cidades tecnológicas com estradas modernas, edifícios, gestão de resíduos e transporte, estamos cercados por uma multiplicidade de serviços que nossos antigos irmãos e irmãs em Cristo nunca imaginaram em seus dias, incluindo as redes sociais e tráfego aéreo. Em outras palavras, nossas situações podem ser muito diferentes da carta do Novo Testamento – mas tem um ponto que é muito aplicável a uma igreja local no coração de Nova York ou de uma pequena casa rural nas planícies da África Subsaariana.

O Dr. Martyn Lloyd-Jones escreveu que ”o ponto da pregação é relacionar o ensino das Escrituras ao que está acontecendo no nossos dias.”9 A tarefa na pregação é levar para casa o principal ponto do texto quando aplicamos a verdade ao público moderno, à medida que a aplicação é transposta do cenário de uma carta antiga. Schreiner é útil neste ponto:

Um dos pontos mais cruciais a lembrar na interpretação das Cartas de Paulo é que elas foram escritas para abordar situações específicas. Elas não são tratados sistemáticos destinados a apresentar uma teologia Cristã completa. Elas são obras pastorais em que Paulo aplica sua teologia aos problemas específicos nas igrejas. 10

A ocasião da carta pode envolver divisão como vemos em Filipenses, mas ao pregar Filipenses 4:13, o objetivo de perseverar através de julgamentos, sofrimento e perseguição deve vir à tona como o alvo dessa passagem. Compreender os antecedentes da prisão de Paulo ajudará neste processo. Esta é uma passagem única onde a ocasião da prisão de Paulo é ligada ao ponto central do texto e deve ser pregada.

Pregando Trechos das Cartas

Quando Paulo chamou os presbíteros da igreja em Éfeso para se encontrarem com ele em Mileto, ele não somente os alertou sobre os lobos que entrariam na igreja com o desejo de devorar o rebanho de Deus. Recordou-lhes também que tinha se empenhado para proclamar todo o conselho de Deus (Atos 20:27). Paulo tinha trabalhado para expor os textos do Antigo Testamento como ele os apontou para Jesus Cristo.

Esse continua a ser o mesmo dever do expositor moderno. Somos chamados a pregar todo o conselho da palavra de Deus que exige a proclamação de todas as partes das cartas do Novo Testamento, das palavras introdutórias até as declarações finais. Cada palavra importa. A Bíblia não contém nenhuma palavra desperdiçada.

Cada palavra importa. A Bíblia não contém nenhuma palavra desperdiçada.

Nas cartas do Novo Testamento, nós temos vislumbres da adoração da igreja primitiva, da comunhão, da plantação de igrejas, da evangelização de incrédulos, estabelecendo uma eclesiologia fiel que lida com uma multidão de controvérsias e sofismas. Não só temos esses momentos instantâneos da vida da igreja primitiva, mas temos também trechos dos credos, confissões, orações e hinos da igreja primitiva que são intencionalmente incorporados nas cartas.

Elas contém pontos relevantes de aplicação para a igreja atual e se mantém firmes no fundamento seguro de uma teologia bíblica sólida. A tarefa do pregador moderno é levar essas cartas com todas essas partes componentes e proclamá-las com autoridade e clareza à igreja moderna de tal forma que Deus será honrado e glorificado entre o seu povo.

Saudação

As cartas do Novo Testamento, também como as cartas do seu período de tempo, terão na maioria das vezes uma introdução clara que se desenvolve com dados biográficos que incluem autor, destinatário e, na maioria das vezes, uma saudação que pode incluir uma oração. Essa é uma informação importante para o expositor enquanto ele se prepara para pregar uma carta do Novo Testamento, porque lhe dá pistas que o ajudarão em sua pesquisa do contexto geográfico e histórico. Por exemplo, se o expositor está pregando em Efésios, ele encontrará as seguintes informações nos 2 versos introdutórios da carta:

  1. O autor é o Apóstolo Paulo (não qualquer homem chamado Paulo).
  2. O apostolado de Paulo veio pela vontade de Deus.
  3. Os destinatários eram os santos em Éfeso. Esta é uma clara referência à igreja na cidade e não à cidade como um todo.
  4. A sua saudação comum menciona graça e paz que provêm de Deus, Nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo.

Não somente o expositor deve usar os dados biográficos, mas há também informações importantes relativas ao ofício de um apóstolo de Jesus Cristo incluídas nas palavras iniciais da carta de Paulo. À medida que a carta se desenvolve, Paulo faz referência aos Cristãos como santos o que deve ser devidamente explicado. A fim de pregar fielmente através de uma carta do Novo Testamento, as palavras iniciais devem ser plenamente expostas e explicadas.

Corpo

No corpo de uma carta, o autor começará a desenvolver o tema-chave que pode servir ao propósito de educação (instrução), correção e edificação. Em alguns casos, uma única carta como 1 Coríntios pode servir aos três propósitos. Romanos é talvez a carta doutrinária mais abrangente no Novo Testamento, mas ao final do capítulo 11, Paulo faz a transição da ortodoxia para sua seção sobre ortopraxia que serve ao propósito de instrução prática.

O expositor procurará identificar o tema (ponto principal da carta) e manter esse tema central enquanto expõe as verdades de cada parágrafo ou seção da pregação em todo o corpo. Ao contrário da narrativa, o estilo didático das cartas tenderá a limitar as seções de pregação a porções menores que podem parecer ”pequenas” em comparação a outro gênero, mas o expositor habilidoso não lerá as frases e trechos mais curtos sem dar total atenção a cada palavra, frase e enunciado à luz do tema abrangente da carta.

No corpo da carta, o autor pode incluir detalhes que merecem atenção, mas não apoiam diretamente o tema abrangente da própria carta. Essas informações poderiam servir a um ponto prático em um único sermão ou a levar uma minissérie dentro de uma exposição mais ampla da própria carta. Tom Schreiner é útil neste momento:

Algumas passagens nas Epístolas Paulinas levantarão perguntas sobre questões histórico-culturais específicas. Por exemplo, como era a escravatura no mundo Greco-Romano? Que tipo de roupa as mulheres usavam na antiguidade (veja 1 Tim 2:9-10; 1 Pe 3:3-4)? Era típico que as mulheres usassem o véu ou tinham um penteado particular no mundo Greco-Romano (veja 1 Cor 11:2-16)? E isso levanta outro questionamento: Qual era o lugar das mulheres no mundo Greco-Romano?11

De muitas maneiras, as cartas do Novo Testamento incluirão material historicamente relevante que pode precisar ser minimizado ou declarações teológicas que merecem pleno desenvolvimento e precisão exegética. Por exemplo, quando Paulo inclui um hino ou uma declaração de credo (Fp 2:6-11; Col 1:15-20; 1 Tim 3:16; Ef 5:14), o texto deve receber a devida atenção com o propósito de demonstrar o uso dos credos, mas mais importante, emonstra as convicções doutrinárias da igreja primitiva.

 Ao final do terceiro capítulo de 1 Timóteo, temos um exemplo disso, pois Paulo escreve as seguintes palavras:

Evidentemente, grande é o mistério da piedade:

            Aquele que foi manifestado na carne

                        foi justificado em espírito,

                                    contemplado por anjos,

            pregado entre os gentios,

                        crido no mundo,

                                    recebido na glória. 12

Neste verso, temos no mínimo uma parte de um hino Cristão primitivo que provavelmente foi usado como um hino de confissão doutrinária. O expositor não deve perder tais detalhes e deve compreender a importância do uso desta citação de Paulo à luz dos deveres pastorais de Timóteo. Como William Hendriksen observa: ”Assim o X – que é a vigésima letra do alfabeto Grego e é chamado chi – é chamado duas vezes. Podemos dizer, portanto, que os 6 versos estão dispostos chi-asticamente. Os 6 versos deste Hino em Adoração a Cristo começa com um verso sobre o nascimento humilde de Cristo e termina com uma referência à sua gloriosa ascensão.13 É vitalmente importante descompactar a natureza dessa citação, a estrutura da confissão doutrinária, a teologia do hino e ligá-la ao tema pastoral central da carta de Paulo a Timóteo.

Encerramento

A seção final das cartas do Novo Testamento podem fornecer informações que são importantes para a ocasião, bem como instrutivas e necessárias para o público moderno também. Assim como o expositor não deve pular a saudação introdutória, a fim de passar rapidamente para o material importante contido no corpo, a fim de pregar todo o conselho da Palavra de Deus, o verdadeiro expositor também entregará fielmente a parte final da carta.

Em alguns casos, pode ser revelado que foi utilizado um copista para efeitos de compilação da carta. Essa informação vem à tona nas palavras finais de Paulo à igreja em Roma (Rom 16:22), ”Eu, Tércio, que escrevi esta epístola, vos saúdo no Senhor.” Em outras ocasiões, Paulo explicitamente declara que ele havia escrito a carta sem um assistente (1 Cor 16:21; Gál 6:11; Col 4:18; 2 Tes 3:17; Fil 1:19; 1 Pe 5:12). Em ambos os casos, muitas vezes essa informação vem à tona no fim da carta ou é incorporada nas palavras finais. Embora isso não altere nenhuma doutrina contida no corpo da carta, é ainda uma informação importante que deve ser registrada e pregada.

As palavras finais das cartas do Novo Testamento incluem saudações finais, palavras de elogio, expressões de agradecimento pessoal pela assistência no ministério do evangelho, doxologias e planos de viagem. O chamado do pregador é pregar todas as linhas do texto – incluindo o que pode parecer uma informação insignificante ou apenas observações finais. Um grande exemplo disso é o capítulo final de Romanos. O que pode parecer como uma lista de saudações pessoais ou elogios, em um exame mais aprofundado revelará o propósito de Paulo. Também perceba que muitas pessoas mencionadas são mulheres que Paulo está elogiando por sua generosidade e assistência. Isso demonstra alguns fatos importantes, é a prova de que o apóstolo Paulo não era um machista que rebaixava o valor das mulheres. Tais detalhes devem ser fielmente proclamados e aplicados à igreja moderna.

Quando Paulo conclui a sua carta à igreja de Roma, ele faz com uma doxologia Cristã completa.  Depois que Paulo subiu às alturas da glória com as doutrinas da justificação pela fé e da glória da fé salvadora, ele se expressa com uma declaração conclusiva e teologicamente rica. Esta doxologia que é simplesmente um louvor que atribui glória a Deus, resume toda a carta de Romanos e aponta aos seus leitores a sua esperança em Cristo somente.

Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério guardado em silêncio nos tempos eternos, e que, agora, se tornou manifesto e foi dado a conhecer por meio das Escrituras proféticas, segundo o mandamento do Deus eterno, para a obediência por fé, entre todas as nações, ao Deus único e sábio seja dada glória, por meio de Jesus Cristo, pelos séculos dos séculos. Amém. 14

O uso de uma declaração doxológica não é exclusivo de Paulo ou do Novo Testamento. Encontramos doxologias tanto no Antigo como no Novo Testamento. Cada um dos livros dos Salmos conclui com uma declaração de louvor a Deus (Sl 41:13; 72:18-20; 89:52; 106:48; 150). No Novo Testamento, encontramos doxologias em várias cartas como Gálatas, Efésios, Filipenses, Judas, 1 Timóteo, 1 Pedro e Romanos.

Essas declarações de louvor merecem o devido foco e atenção. No caso da carta de Paulo à igreja em Roma, da carta breve de Judas e das palavras finas de Pedro em sua primeira carta, estas palavras finais devem ser devidamente expostas com toda a sua riqueza teológica, mantendo um olhar hábil sobre o tema e o objetivo de toda a carta.

Pregando Cristo a Partir das Cartas

Como pregadores Cristãos, independentemente do texto que pregamos, somos chamados a pregar Cristo. Pregar é mais do que proferir discursos moralistas ou teológicos ao léu. Não somos chamados apenas para dar palestras teológicas. Somos arautos da boa nova de salvação.

Nos dias de Paulo, os Judeus procuravam sinais e os Gregos a sabedoria, mas Paulo anunciava que o seu alvo era pregar ”Cristo crucificado, escândalo para os Judeus e loucura para os Gentios.”15 Vivemos em uma época onde todos procuram pela sabedoria humana, conhecimento proveitoso e mensagens politicamente corretas, mas o nosso chamado como pregadores Cristãos não é diferente que o de Paulo ou de qualquer outro apóstolo ou associado do Novo Testamento. Nosso chamado é apontar as pessoas para Cristo.

Como pregadores Cristãos, independentemente do texto que pregamos, somos chamados a pregar Cristo. Pregar é mais do que proferir discursos moralistas ou teológicos ao léu. Não somos chamados apenas para dar palestras teológicas. Somos arautos da boa nova de salvação.

Em alguns casos, pregadores cometem erros graves em proclamar Cristo de maneiras que vão além da intenção original do autor. Isto é especialmente verdadeiro quando se prega as Escrituras do Antigo Testamento. Muito pregadores caíram no abismo da interpretação alegórica sem um compromisso firme com a intenção original do autor. William Tyndale entendeu esse problema em sua época, pois se opunha aos abusos da Igreja Católica Romana. Ao explicar tais abusos da Igreja Católica Romana, note como Tyndale estava firmemente compromissado com a intenção autoral ao falar do sentido original da passagem:

Eles dividem a Escritura em 4 sentidos: literal, tipológico, alegórico e analógico. O sentido literal tornou-se absolutamente nulo: pois o papa o limpou e o tornou sua possessão. Ele o trancou parcialmente com as chaves falsas e falsificadas de suas tradições, cerimônias e mentiras fingidas; e expulsa os homens dela com violência de espada: pois ninguém ousa obedecer ao sentido literal do texto, senão sob um protesto: ‘Se isso agradar ao papa.’ … Entenderás, portanto, que as Escrituras têm apenas um sentido, que é o sentido literal. E esse sentido é a raiz e a base de tudo, é a âncora que nunca falha, à qual, se você se apegar, nunca poderá errar ou sair do caminho.16

O nosso objetivo como expositores é pregar com compromisso à intenção original do autor, mas devemos, sempre, pregar Cristo. A principal ideia do texto deve ser a ideia principal do sermão que pregamos. Pode ser mais natural pregar Cristo das cartas do Novo Testamento do que do livro de Ester no Antigo Testamento, mas não devemos baixar a nossa guarda devido a nossa proximidade da cruz. Na verdade, é possível pregar Cristo de uma passagem do Novo Testamento incorretamente.

A colocação das cartas do Novo Testamento no cânon bíblico é após o ministério terreno de Jesus que incluiu a sua crucificação brutal e sua gloriosa ressurreição que culminou em sua maravilhosa ascensão ao trono do Céu. Cada uma das cartas no Novo Testamento remetem para a conclusão da obra de Cristo e o cumprimento da sua missão salvífica (Mt 1:21). Como resultado, cada carta nos aponta para Cristo em vários níveis, incluindo sua obra redentora, morte substitutiva, justiça divina, vitoriosa ressurreição e a prometida segunda vinda. Em suma, o evangelho serve de alicerce para a Igreja que foi comprada por Cristo.

Embora haja muita discussão sobre pregação expositiva em nossos dias nos círculos evangélicos conservadores, algo é chamar a si mesmo de expositor, outro é realmente labutar para entregar uma pregação expositiva semana após semana.

As cartas do Novo Testamento desempenham um papel fundamental na formação e crescimento da Igreja ao longo dos séculos, que se prolongam até hoje. Essas cartas devem ser pregadas pelo bem das igrejas locais em todo o mundo – e ao fazê-lo, Cristo será proclamado e adorado entre o seu povo. Embora haja muita discussão sobre pregação expositiva em nossos dias nos círculos evangélicos conservadores, algo é chamar a si mesmo de expositor, outro é realmente labutar para entregar uma pregação expositiva semana após semana. Se quisermos pregar Cristo e este crucificado de todo o conselho da Palavra de Deus, devemos nos comprometer a manejar corretamente a Palavra da Verdade (2 Tim 2:15). A fim de manejar corretamente a Sagrada Escritura, devemos nos empenhar na pregação das cartas do Novo Testamento com toda a sua riqueza e esperança no evangelho.

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Josh Buice | Brasil

Josh Buice é o fundador do Ministério G3 e serve como pastor na Pray’s Mill Baptist Church (Igreja Batista Moinho de Oração) na zona oeste de Atlanta. Ele ama teologia, pregação, história da Igreja, e é bastante compromissado com a Igreja local. Ele gosta de praticar esportes, como corrida de longas distâncias e costuma caçar nas florestas do país. Ele tem escrito sobre salvação pela Graça desde que estava no seminário e tem atingido um número relevante de leitores com o passar dos anos.